Terça-feira, Junho 30, 2009

O SEGREDO DA VIDA DE UM CASAL


Contardo Calligaris

Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.

Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?

Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.

Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.

Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.

Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.

TRECHO DE "EFEITO URANO"



Fernanda Young

(...) "Somos uns macacos que sabem rir. Só não subimos nas árvores porque achamos ridículo. Nossas bananas vêm carameladas ou flambadas em licor. Somos, todos, esses seres primitivos, que preferem um buraco de carne a um amor profundo. Que tratam amor como um carinho na cabeça. Que não sabem como agir porque não foram adestrados."

Segunda-feira, Junho 22, 2009

REGISTRADO EM CARTÓRIO




Texto: (mesepareieagora.blogspot.com)

De acordo com a escritura pública, lavrada no Cartório tal tal tal, no livro xyz em tanto do tanto de dois mil e oito, fica averbada a separação do casal, sendo que o cônjuge feminino voltou a usar o nome de solteira. O referido é de verdade e de fé. Eu, fulano de tal digitei."
É isso que tá escrito no verso da minha certidão de casamento, isso é que é averbar a separação. É ir lá no cartório e pedir pra eles escreverem isso. E a minha dor, quem é que averba?

Quinta-feira, Junho 18, 2009

VOCÊ AMA, MAS...



Texto: Ivan Angelo


Não é o tempo inteiro que você ama quem você ama. Há intervalos, pausas, preguiças. Às vezes você passa um tempo sem amar quem você ama. Mas basta um perigo, uma doença, um assédio para você despertar para o seu amor, como de uma cochilada.

Nada a ver com desinteresse. Às vezes quem você ama faz alguma coisa que não é legal, que mexe com você, como uma palavra num tom errado, mas é coisa pequena, não vale a pena cobrar. Fica aquela preguiça, corpo mole. Beija, mas não é aquele beijo.

Outras vezes você acha que o seu amor falhou com você. Ou porque se esqueceu do seu aniversário, ou porque não ligou o dia inteiro, ou porque ligou o dia inteiro, ou porque passa tempo demais na internet, ou com fones nos ouvidos, desligado de você. Então você se permite um tempo para descansar um pouco do seu amor. Acha que está dando mais do que recebendo, e com isso tem deixado de fazer coisas, suas coisas. Aproveita o tempo para responder a e-mails acumulados, enviar fotos que ficou devendo, lavar o carro, copiar a chave perdida, levar o cão para um banho e tosa, pagar uma visita, levar aquele sapato para o conserto, talvez pedalar no parque. É gostoso esse tempo em que você não ama quem você ama, é quase como um fim de semana prolongado, sem viajar.

Tem horas em que você não se lembra de que está amando quem você ama, com tanta coisa para fazer disputando espaço na sua cabeça: trabalho, vestibular, currículo, entrevista, negócio, mãe, prestação vencida, filho, escola, compromissos, trânsito – e se distrai. Nessas horas você não está amando quem você ama. Não são falhas, são intervalos.

Chega um dia em que você precisa receber mais atenção de quem você ama, está carente, hipersensível, e não recebe. Em resposta, você dá uma recuada. Ou tem dia em que você está muito a fim e não coincide, e aí você recolhe a mão curiosa. Ou quer carinho e a mão não chega. Você vai para dentro da sua concha e deixa de amar quem você ama por um tempo variável de minutos a dias.

Pode acontecer uma vacilada. Não é que você não esteja mais amando quem você ama, é só um vacilo. Por exemplo, encontra casualmente uma paquera dos tempos de faculdade, ou uma paixão do colégio, aquela coisa que não chegou a ser, e alonga a conversa, fica testando se a outra parte desencanou total como você ou se guardou alguma coisa, é mais vaidade do que curiosidade, você fica tentando captar algum sinal, nem sabe se teria coragem, e nada acontece, e se despedem, e você passa uns dias com aquela imagem voltando... – e nos momentos dessa inquietação nostálgica você não está se lembrando de que ama mesmo é quem você ama.

Chuva, quando se está só, também deixa a gente precisando. Em caso de viagem, chega a doer, e você percebe que é saudade de abraço, da coisa física que é o abraço, impessoal de tão abraço. Nesse momento animal você nem está amando quem você ama, aquela coisa é só você, solidão.

É exaustivo manter a corda do amor esticada o tempo todo, e você descansa o braço para relaxar. Não é desamor, é uma pausa para beber água – mas já pensou se aquela bandida ou aquele bandido passa numa hora frágil dessas? São coisas que acontecem ao longo de um amor, e o momento passa sem bandidos, que apenas riscam a paisagem e somem como pássaros.

Quando você dorme, você não ama. É o melhor descanso. E quando sonha, então? Pode até permitir carícias de fantasmas, mas não é você que está ali, é tudo uma fantasia da qual quem ama retorna sem culpa.

Não é sempre que você ama quem você ama, mas, quando se dá conta, já passou uma vida inteira amando quem você ama.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

GERAÇÕES PERDIDAS



Texto: Luciana von Borries


Martin Luther King já dizia no seu mais célebre discurso: "Eu tenho um sonho". Bom, como ele, todos nós tivemos os nossos. E mais ou menos, a gente sabe com o que sonhavam as gerações antes da nossa. Muitos ainda podem afirmar que os anseios e conquistas acabam traçando o perfil do seu tempo. Eu já acredito que só conseguimos entender uma geração a partir das suas perdas, ou seja, pelo que ficou pelo caminho na sua história.

Por exemplo, a geração dos meus avós perdeu a ilusão. Eles sofreram muito, tiveram vidas difíceis, passaram por guerras, sentiram fome, tiveram que começar do nada ou de uma vida totalmente rural e sem recursos. Então, na maioria das vezes, foram pais duros, rígidos, severos nas punições e nas regras. Muitos deles só ficaram mais leves com a chegada dos netos.

A geração dos nossos pais perdeu o juízo. Depois eles até caíram na real, mas muitos embarcaram nas drogas (alguns nem voltaram), curtiram rock pela primeira vez, queriam se libertar da repressão e do conservadorismo dos seus pais caretas. Poucos reproduziram a educação que receberam. No geral, buscaram caminhos menos cartesianos.

Os nascidos na década de 70 e 80 formam a geração dos sem causa. Não tiveram que lutar por quase nada. Eu digo quase, porque todo mundo um dia batalhou pra ganhar um tênis Nike ou uma Caloi, não é mesmo? Não quero fazer injustiças. Enquanto os rebeldes dos nossos pais fugiam de casa com 17 anos por amor ou apenas para viajar (nos dois sentidos da palavra), hoje as pessoas se separam aos 35 e fogem para a casa dos pais. Ou pior, alguns chegam a essa idade sem saírem de lá. Na real, não estou aqui pra criticar aqueles que fizeram essa opção. O que fica mesmo é a pergunta: O que este comodismo todo, misturado às conquistas que recebemos prontas e às facilidades da tecnologia nos fizeram perder?

Pois tenho um palpite: nós perdemos a tolerância. Talvez um antropólogo possa explicar melhor ( ou não?! ) porque jamais o mundo testemunhou uma legião tão grande de intolerantes. Hoje usufruímos de tantas conquistas e evoluções bacanas como a igualdade de raças, de sexos, a consciência ambiental entre tantas outras. Mas o fato é que não temos paciência pra quase nada: pais, filhos, trânsito, namorado, cônjuge, cachorro, gato, garçom, vizinho, trabalho, quase tudo a nossa volta, em algum momento, se torna vítima da nossa total impaciência.

Juro que tenho medo só de pensar no que essa intolerância toda pode causar nas próximas gerações. E depois me perguntam porque AINDA não tive filhos. Nestas horas, respiro fundo e tento encontrar alguma tolerância pra responder.

Domingo, Maio 10, 2009

MULHER OCUPADA



Ilustra: Ana Ventura

O ArquivoXX agora também contribui para mais um espaço, que promete na Internet. É o Mulher Ocupada, da Karla de Oliveira. Recebi este convite e, apesar de andar cheia de trabalho, não poderia negar, né?

Aliás, já estou lá com uma crônica de 2007 (PELOS PODERES DE GREYSKULL). Como diz a minha tia Marion, que sempre foi uma mulher ocupadérrima: "se você precisa de ajuda, peça para alguém bem ocupado, pois esse certamente vai dar um jeito mais rápido e melhor do que quem tem tempo sobrando." Acho que a Karlinha sabia bem disso, pois o blog é uma reunião de gente boa e ocupada, mandando o seu recado, o que me deixa muito honrada.

Então está combinado! Quando tiverem um tempinho, passem lá: www.mulherocupada.com

Terça-feira, Abril 21, 2009

SEPARE O SEU LUXO



Texto: Luciana von Borries

Uma vez li uma definição de supérfluo que achei simplesmente perfeita: "supérfluo é tudo que não importa pra você". Genial isso. Tem muito a ver com valores, que assim como a própria palavra já diz: cada um tem os seus. E aí? Quanto valem as coisas que mais importam pra você?

Tenho pensado muito nisso, nestes tempos de crise. O que realmente tem valor, já que todo mundo agora precisa poupar? Então resolvi fazer minha própria definição de luxo, porque é por aí que os economistas recomendam que a gente deve começar a cortar, não é mesmo?

Pra muita gente, luxo pode ser um grande privilégio, ser dono de uma lancha de 30 pés, frequentar um Spa 5 estrelas, fazer um cruzeiro pra Grécia, ter um Porsche ou morar em uma cobertura de mil metros quadrados. Ok, ótimo! Mas isso tudo são luxos que o dinheiro pode comprar. Mas e aqueles luxos intransferíveis, exclusivos, divinos e verdadeiramente impagáveis? Particularmente são os que mais me seduzem. E esses não precisam ser cortados. Bem pelo contrário, deveriam ser mais perseguidos do que técnico de seleção em Copa do Mundo. Sabe por quê?

Luxo é amar e ser correspondido.
Luxo é fazer uma viagem linda e morrer de saudade da família.
Luxo é gozar de saúde e bom humor aos 80 anos.
Luxo é ter amigos que te falam a verdade.
Luxo é sentir tesão e amor pela mesma pessoa, por anos a fio.
Luxo é ser respeitado pelas suas ideias.
Luxo é ter a natureza como vizinha.
Luxo é receber o amor dos filhos pra sempre.
Luxo é se divertir trabalhando.
Luxo é realizar sonhos de infância.
Luxo é continuar sonhando, apesar de ter crescido.
Luxo é comer fruta do pé.
Luxo é não ter muro ao redor de casa.
Luxo é ter paz de espírito, apesar do caos.

Luxo é saber separar tudo isso do supérfluo que o mundo insiste em nos vender bem caro. Que tal uma grande reciclagem de valores? Quem puder fazer isso, quem sabe até consiga sair dessa crise uma pessoa melhor do que entrou.

SAUDADES DE VÓ




Texto: Andréa del Fuego

O dia nasceu tão vibrante, com um brilho no olho das janelas que não deu: lembrei-me de minha avó, a Maria de Jesus. Vó do céu, que saudade, meu colo mais vibrante, a gargalhada que me fazia cócegas. Um amor desse, minha gente, um amor desse um dia perde o corpo e você não o ouve mais. Vou regar o jardim, que precisa de água, e caso você possa abraçar sua avó, diga que eu a amo também.

A DAMA DO TELHADO



Texto: www.roveriblog.blogspot.com

Tarde dessas eu estava tomando um café a algumas quadras de casa quando passaram pela rua, em disparada e com as sirenes ligadas, três viaturas da polícia. Assalto ou acidente, eu pensei. Terminei o café e voltei a pé para casa. Quando estou chegando, vejo as viaturas na frente do meu prédio e a rua tomada por vários policiais. Eles estavam tentando impedir que uma mulher se jogasse do telhado de um sobradinho de dois andares, que fica bem em frente ao meu prédio. Pode parecer pouca coisa, se atirar de um sobradinho de dois andares, uma queda de sete metros, talvez. No máximo, ela conseguiria quebrar uma perna ou deslocar a clavícula, deviam pensar as pessoas que se aglomeraram na calçada para acompanhar a ação dos soldados. Dois deles subiram no sobradinho e, a poucos metros de distância da mulher, tentavam convencê-la a acompanhá-los.

A ação toda não deve ter levado mais do que cinco minutos. E parece ter causado pouco impacto nos curiosos da calçada, cujos rostos denunciavam mais um sorriso incrédulo do que preocupação. Rapidamente os soldados no telhado imobilizaram a mulher e obrigaram-na a descer. Em poucos segundos, a rua já estava voltando ao normal. Fiquei na calçada mais um tempinho, ao lado de uma mulher que, dali a pouco, vim a saber que era médica. Quando estávamos nos preparando para ir embora também, o porteiro do prédio ao lado nos tranquilizou: “Não liguem para ela, não”, ele nos disse. “Ela não deve bater bem. É a terceira vez que ela faz isso este ano. Eu acho que quando ninguém dá bola pra ela, ela sobe ali e diz que vai se jogar só para aparecer a polícia. Mas nunca se joga”. Disse isso e voltou para a sua guarita.

Quando eu estava entrando no meu prédio, a médica falou algo mais ou menos assim. “Não sei, eu não gosto disso. Esta mulher está tentando dizer alguma coisa. Eu tenho muito medo de que algum dia ela consiga”.

Até onde eu sei, desde aquele dia ela não subiu mais no telhado do sobradinho. Torço para que ela tenha conseguido dizer, sem precisar sair do chão, tudo aquilo que a afligia.

Domingo, Abril 05, 2009

O FANTASMA DA TRAIÇÃO


Texto: Leila Ferreira - www.nosmulheres.globolog.com.br


Olá, meninas. Hoje vou deixar aqui duas frases ótimas que eu ouvi, pra vocês se divertirem e, se for o caso, refletir no fim de semana. A primeira quem me disse foi uma professora de Rondônia que conheci há poucos dias em Cuiabá. A gente estava conversando sobre homens, casamento e infidelidade (uma pauta bem original entre as mulheres...) e ela me contou que foi traída pelo marido, comeu o pão que o diabo amassou, mas resolveu perdoar e hoje vivem felizes. Pergunto como conseguiu superar a mágoa. A professora, simpaticíssima e super alto astral, diz que chegou à conclusão que valia a pena preservar o casamento porque os dois são ótimos companheiros, se ajudam, se entendem, enfim, vivem bem de verdade. E agora, pergunto, consegue confiar nele? Do alto de sua experiência, a professora faz uma pausa, respira fundo e depois diz apenas, em tom resignado: “De duas coisas a mulher nunca vai se livrar: a morte e o chifre”. A resposta, ainda que genérica, está dada.

A outra frase quem me disse foi uma senhora de mais de 80 anos, campeã de natação e viúva, que eu entrevistei quando era repórter em Belo Horizonte. Como ela era animadíssima, gostava de dançar e passear, perguntei se não tinha vontade de se casar outra vez. Ouvi um “não” categórico, seguido da explicação: “Estou muito bem assim. Casar pra quê? Pra sofrer? A viúva vive tranqüila, porque é a única mulher que sabe onde o marido está”.

Enfim, amigas, as frases da viúva e da professora, no final das contas, querem dizer a mesma coisa: nossa sorte está traçada. Homem fiel, tamanduá-bandeira e mico-leão dourado fazem parte da mesma categoria. Com um agravante: o homem fiel o Ibama não faz nada pra preservar. Já sei: vocês vão dizer que as mulheres também estão “traindo”, e sempre tenho vontade de escrever o verbo “trair” entre aspas. Mas a gente não precisa recorrer às estatísticas pra saber que a prática ainda é bem menor entre nós. Questão de tempo? Não sei. Sei apenas que, por enquanto, nossa chance de estar do outro lado da traição ainda é maior. O que me sugere algumas perguntas: vale a pena a gente esquentar a cabeça? Vale a pena a gente se torturar de ciúmes? Adianta tentar “vigiar” o que eles estão fazendo ou onde estão indo? Adianta procurar chifre em cabeça de cavalo – com grandes chances de encontrar?

Hoje fiquei pensando em quanta energia já gastei com o tal do ciúme – e ainda gasto, claro. Dava pra alimentar uma usina hidrelétrica e iluminar algumas cidades. Isso fez com que eu deixasse de ser traída? Nunca! Continuo sendo? Não sei. Mas quero aprender a parar de procurar os sinais. Assombração sabe pra quem aparece e eu nunca soube de assombração que aparecesse na praia ao meio-dia, numa sessão de cinema, numa viagem prazerosa ou na balada. Aparece quando a gente está sozinha, nos cantos, pensando, telefonando, tentando seguir os passos do outro, que escorrega feito alma penada. Enquanto a gente se diverte, ou enquanto a gente vive e deixa viver, os fantasmas da traição nos dão trégua. É o mínimo que a gente merece. E é dessa cota de leveza, ainda que modesta, que eu quero desfrutar.

O FASTIO PÓS-COITO


Texto: Fábio Hernandez (www.ohomemsincero.globolog.com.br)

Ouvi de minha amiga Consuelo uma queixa que me pareceu incongruente: “Lembra do Carlos? Dispensei. Ele era insuportavelmente grosseiro depois do orgasmo”. “Como assim?”, perguntei. “Vocês homens tornam-se incivilizados depois que conseguem seu orgasmo. Sobem na árvore, grunhindo para si mesmos, incapazes de dividir. “Dividir. Quantas vezes já ouvi esta palavra sair em estocadas da boca de uma mulher. Di-vi-dir. Em suma, o pobre Carlos, o fiel e dedicado Carlos, depois do orgasmo, quis assistir futebol. Nem um beijo, nem uma palavra de amor. Apenas o som frio e oco do controle remoto. Adeus, Carlos, você não quis di-vi-dir o “depois” do orgasmo.

Consuelo não é exatamente uma feminista, e a queixa, embora intelectualizada, me pareceu cheia de razão. É verdade, depois do sexo somos incivilizados: sofremos de fastio. Todos nós, homens, sofremos do fastio pós-coito. Mas por alguma razão sempre à espreita, talvez o terror antimachismo ou a política de boa vizinhança, temos de fingir que não. Disse firme para Consuelo: “Já não bastam as preliminares extensíssimas que vocês nos exigem, querem agora que fiquemos depois fazendo onda também..." Não sei se foi a palavra onda, mas o fato é que ouvi de Consuelo a seguinte frase: “Você é narcisista e egocêntrico”.

As mulheres são mesmo assim, sinceras. Nós é que somos os eternos mentirosos. E pagamos por isso. Mentimos (ou ao menos omitimos) que queremos ficar ao lado delas depois de totalmente saciados, quando, na verdade, queremos ligar a TV e ver os gols da rodada ou ir à cozinha comer um pedaço de pizza fria. Talvez seja hora de falarmos com a franqueza peculiar ao sexo frágil. Elas nos pedem que compreendamos seu tempo sexual. Nós compreendemos. Elas nos pedem que olhemos seu interior. Nós olhamos. Elas nos pedem que dividamos com elas a preocupação com a gravidez. Nós dividimos. Quero viver meu fastio pós-coito, meu pessoal e intransferível pós-coito, em paz. É meu singelo pedido.

Para nós, homens, parece nonsense o bailado feminino depois da cópula. Não entendemos como elas conseguem permanecer passarinhando ao nosso redor, esfregando seus pezinhos frios na nossa canela e beijando nossa orelha, se não há nenhum motivo gritante para isso. Já não cumprimos nossa missão, passo a passo – caprichamos nas preliminares, olhamos por dentro delas, usamos devidamente a camisinha contra gravidez e doenças? Elas já não estão coradas e felizes? Que mais esperam de nós, depois de tamanha explosão de energia? Não entendo. Há entre um orgasmo e outro um breve momento de indiferença gloriosa. É breve, mas existe. Depois do sexo, estamos fartos, cheios até a boca, boiando no torpor de nossos egos inflados e hormônios sedados, orgulhosos de nós mesmos e completamente indiferentes a ela – ou a tudo. Olhei para Consuelo e pedi: “Clemência! É que, depois do sexo, não precisamos de mais nada”. Consuelo fuzilou-me: “Vocês só nos dizem coisas doces para nos usar. Depois do prazer, não servimos nem para conversar”.

E isso não é ótimo? É como nos sentimos também – usados -, só que não julgamos isso negativo. Consuelo me cansa com a mania persecutória comum a todas as mulheres deste século. Pago por todos os homens opressores da história da humanidade – e quem sou eu? Um oprimido, um homem que não pode viver seu fastio pós-coito sem sustos, porque sabe que um quarto de hora mais tarde estará de novo no alto da montanha-russa da testosterona, prestes a implorar de joelhos que a amada o encha de beijos e ouça as perversões que guardou para ela. Quem é o usado aqui?

Calei-me. Não disse a Consuelo uma imagem que Toni, um amigo em comum, me deu certa vez sobre o momento depois do orgasmo. “Sabe”, ele me disse, “quando você encosta os dois pés na beirada da piscina para dar impulso e ganhar distância? Tenho vontade de fazer isso... na cama". Ele não disse na cama, ele disse o nome da namorada dele. E completou: "Com todo respeito". Toni ansiava por ganhar espaço, solidão, estar só com sua total - e fugaz - alforria do desejo. Sexo é prisão. Doce prisão. Se há alguém escravo numa relação de sexo, somos nós, os homens. O desejo nos acorrenta às mulheres; o momento pós-coito nos liberta. Nos sentimos livres, por alguns momentos, daquela angústia permanente que é nosso desejo ancestral de copular com todas as mulheres do mundo, distribuir nossos espermatozóides e proliferar nossas sementes sobre a terra.

É uma centelha de paz justa, merecida, neste universo tão caótico. E não há razão nenhuma para que sintamos culpa pelo fastio diante da nudez irada e tagarela da mulher que acabamos de satisfazer sexualmente e agora insiste numa conversa sem sentido.